Arte - 14/02/2014

Fotografias não tiradas

Quando se fala em fotografia, é meio óbvio e quase intuitivo, falar das fotografias mais famosas, junto a composições incríveis e momentos únicos. Sem falar também daqueles que registraram esses momentos: os fotógrafos; entre eles há os mais famosos, os mais experientes e aqueles que digam “os sortudos!”. Na minha pouca experiência com a fotografia, tenho certeza que sorte não é um dos elementos principais para obter-se uma boa fotografia, pois, se você tiver que contar com ela para lhe ensinar ângulo, direção, fotometragem e composição, estaria perdido.

Nesse contexto de boas fotografias, alguém se perguntou “Mas, e se eles não tivessem feito a foto?”? Como assim, não fazer a foto? É isso mesmo. Da mesma forma que há fotógrafos com histórias incríveis sobre fotografias feitas, esses também podem relatar suas experiências do que não foi fotografado e do sentimento envolvido naquele momento.

Como Custódio Coimbra¹, quem deu um depoimento impactante no filme Abaixando a Máquina, ao lembrar-se da cobertura feita da tragédia com o ônibus 174². Ele afirmou: “Se o cara atirasse, eu deixaria de ser fotógrafo.”. Que sentimentos são esses, capazes de paralisar profissionais que dependem da fotografia.

1 – Custódio Coimbra também é fotógrafo. Na circunstância mencionada², formava um trio, junto a um companheiro de lente, Fábio Seixo, e um jornalista, Flávio Pessoa. Todos trabalhavam para o jornal O Globo.

2 – O evento citado trata-se do sequestro do ônibus da linha Gávea-Central, ocorrido em 12 de junho de 2000, e que ganhou repercussão internacional. Na ocasião, o assaltante Sandro do Nascimento manteve onze reféns por mais de três horas, na altura do Jardim Botânico. O episódio teve fim com duas mortes: a de uma refém e do próprio sequestrador.

Estou falando de fotógrafos que perderam o momento do click, ou por emoção ou simplesmente porque resolveram abaixar a câmera; essas condições são o cerne de Photographs Not Taken³. Nele, há relatos de 66 fotógrafos, os quais narraram suas reações aos momentos onde a profissão foi deixada de lado.

3 – Livro escrito e editado por Will Steacy, publicado em 2012.

Jim Goldberg é um deles, ao se lembrar do nascimento de sua filha. Ele diz que usava a câmera como uma máscara, algo para se esconder, enquanto sua mulher estava em trabalho de parto. Mas, a partir do momento que a cabeça da menina começou a aparecer, ele conta que largou a câmera. “De jeito nenhum que eu ia usar a câmera e perder aqueles momentos incríveis.”, resume o fotógrafo. A sua emoção foi tão grande, que esqueceu completamente de registrar o momento, afinal, era sua filha quem estava nascendo.

Ainda no que diz respeito à emoção e família, outra fotógrafa, Elinor Carucci, comentou a experiência de ser mãe, ocasião onde sua escolha se manifestou. “Tive que escolher entre a fotografia e a maternidade. E quando escolhia a fotografia, cada foto se tornava um segundo de culpa.” O ultimato que Carucci encarou costuma aparecer entre os fotojornalistas, que comumente sofrem com o impasse do que fotografar ou não, ao ter de relatar a realidade; convivem com o momento entre “ser e fotografar”.

Erika Larsen e Tim Hetherington (morto em 2011, enquanto cobria um conflito na Líbia) também já passaram por grandes inconvenientes, os quais os fizeram abaixar a câmera. Larsen fala do momento em que haveria de fotografar a família de uma jovem que teria se matado. Ela declara que, ao entrar num quarto, o pai estava com a moça. “Eu podia ver a imagem, mas conseguia apenas ver os soluços dele e sentir minhas próprias lágrimas… Segurei a minha 4×5 no peito, pronta para fotografar, mas não pude; abaixei a câmera, o momento era dele”.

Hetherington falou sobre sua hesitação, ao ter de fotografar ou um africano desconhecido ou um soldado norte-americano. “Minha hesitação me preocupou. Eu tinha ficado sensibilizado desta vez, porque o soldado não era um africano sem nome? Talvez eu tivesse mudado e compreendido que deva haver limites naquilo que é mostrado ao público? Certamente eu não estaria nesta posição de questionamento se não tivesse tirado a fotografia, mas eu tirei”.